segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Fêmur

Não vou te dar nenhum conselho, você está indo muito bem é esperta, espirituosa. Erros fazem parte, o que você aprende com seus erros é a grande sacada. Talvez um conselho defina todos os conselhos que eu não quero te dar. Não seja uma burocrata. Burocratas são covardes. Faça o que você gosta, mesmo que não te de muito dinheiro, você pode viver com pouco, se intender sua essência e o essencial. E  eu sempre vou estar do seu lado, afinal é por você que suporto tudo e nunca deixo de aprender. Não se encante com os gênios do momento, muitos são egoístas e o primeiro critério para ser um gênio, é a generosidade. Isso me lembra de uma conversa que tivemos, quando andávamos pela cidade e vimos alguns moradores de rua. Eu estava errado. Você tem que estudar, mas não para não ficar igual a eles, você tem que estudar para melhoras a vida deles e de muitas outras classes oprimidas e marginalizadas. Essa é a função de um gênio e de todo conhecimento que você vai conquistar, melhorar o mundo. A arte não salva o mundo. Ela nos salva do mundo. É simples, se arrebata é arte, se não arrebata, é só a expressão de uma ou muitas vaidades. Minha missão na terra é essa, estimular você, para que faça coisas grandiosas e seja feliz. Sim a felicidade existe. Os que convivem pouco com ela, dizem que quando ela surge, você acha que vai perder o controle, que esta maluco, tem a estranha sensação que vai morrer, mas você nem liga. Nunca deixe ninguém dizer que você não pode fazer alguma coisa, nem mesmo eu. Também não mate o sonho de ninguém, essa é a atitude mais cruel que uma pessoa pode ter com a outra. E não perca a fé na humanidade, como eu. As pessoas boas ainda são a maioria. Viaje bastante, integre se a cultura local com respeito, conheça as pessoas que vivem na cidade, prove as comidas tradicionais, converse com os mais velhos. Continue assistindo muitos filmes, seu olho é bom para fotografia. Se um dia decidir estudar cinema, fuja do óbvio e não se misture com os clichês ambulantes, eles envenenam seu talento. Desconfie de todo amor que te pede algo em troca. Medo é um mecanismo de defesa do nosso organismo. Se sentir medo, assegure se, avalie os possíveis danos e vai assim mesmo. A maioria dos nossos ossos podem ser consertados e quando se regeneram, são  "O Preço da Experiência".

Com amor

Papai.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Empírico

Dizemos: "mais escola"! Como se disséssemos: "volta Cartola"! Mais um menino morto, o slogan é o mesmo. "Pernas abertas e uísque 21 anos por conta do Brasil".

Somos eu e você e a utopia erótica. Mas por hoje precisamos da noite inteira pra conversar e colocar a alma em dia. Estar do seu lado é a contravenção mais pura e original é debochar da sociedade patriarcal, acreditar na beleza inquestionável do sexo e que o amor é qualquer coisa e nada ao mesmo tempo.

Precisamos ouvir aquele disco do Pink Floyd, andar sem pressa em museus, galerias e teatros. Ver um filme muito chato e sair no meio. Admitir um pro outro, que sou Tarantino e você Truffaut, eu Havana, você Londres.

Lembra quando te disse que somos todos imorais, na nossa essência? Herança de liberdade, cafajestes empíricos. Fêmea, minha fonte de luxuria. Nossa liberdade, o medo da solidão, nossos livros e filmes, companheiros sinceros. A solidão é mesmo um presente? Um dia me perguntaram se eu te amava, eu só respondi: Eu me importo muito com ela.

Imagem: Mulher penteando o cabelo
Hashiguchi Goyō (1880–1921) Japão, 1920 Gravura sobre madeira; tinta e pigmentos sobre papel © Arthur M. Sackler Gallery, Smithsonian Institution, Washington D.C.; Colecção Robert O. Muller (S2003.8.121)

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Querida


Minha querida, estive longe.

Procurava por um exercito, um sonho, a saudade.

Mas meu coração, minha querida, sempre esteve perto, batendo junto do seu.

levei comigo seus olhos,  minhas culpas e minhas duvidas.


Dormi na chuva, acompanhei noites que pareciam nunca acabar.



Conheci homens que morriam a cada dia um pouquinho, às vezes por ignorância, outras vezes, por serem simplesmente humanos.


Compreendi a guerra e a solidão que não se explica.

A força do sol e o silêncio do escuro.

Não encontrei todas as respostas na arte, confrontei-me com meus personagens, meus livros e discos.

Reuni tudo que sentia em uma garrafa e bebi de uma vez.

Minha querida deixei meu coração batendo junto do seu, e não sei mais achar o caminho de volta.


Querida, estou cansado, a subida é difícil e a descida é truculenta.

Sinto que os anjos às vezes me abandonam, mas tem dias que quase me devoram.

Vi o segundo exato, que a vida se apaga nos olhos.



Senti a impotência e a angustia de tomar a decisão errada.

Perdi, mas ganhei, acertei, mas errei.
Enlouqueci de ar e sufoquei com paixões.

Minha querida, eu deixei meu coração batendo junto do seu, e não sei mais voltar.

Fui advogado do meu personagem mas soberbo e dormi com ratos.

Nadei até perder as forças e encontrei a consciência.

Escondi-me em uma velha biblioteca, dei a vida, e não controlei o pranto, no primeiro suspiro do anjo que vi nascer.

Compreendi o sublime, vendo você de longe e sorri sozinho.

Entreguei minhas armas, fiz as pazes com DEUS.

Sabe minha querida?

Deixei meu coração batendo junto do seu, E não consigo mas achar o caminho de volta.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

EDUCAR

Emoção com liberdade.
Educar pra ser feliz.
Mais café na varanda.
Gente aproveitando o vento no fim da tarde.
Mais cachorro no quintal.
Cama de casal.
Comer fruta direto do pé.
Um dia sem pensar em nada.
Outro dia pra encher a cara.
Desenho animado.
Pipoca.
Sanduíche de mortadela.
Suco de limão.
Deixar a água levar e lavar.
Antidepressivos pra acordar.
Ansiolíticos pra dormir.
Não esperar nada, deixar ao acaso.
Fazer uma boa ação sem esperar reconhecimento. 
Ser testado por um anjo e passar com louvor.
Fazer só o que quer, o que te deixa feliz.
As vezes não fazer o que quer, para não deixar ninguém infeliz.
Fazer uma viagem astral e ter certeza que não foi um sonho.
Acordar com uma ideia.
Escrever.
Imaginar.
Sonhar acordado.
Ficar sozinho as vezes.
Nunca solitário.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Universo Particular

Nosso universo particular. Ruptura com o tempo e o espaço. Quando eu botar meus pés no chão, pra descer dessa cama, sei que o sonho acaba. Você leva meu coração que bate junto do seu. Eu como um poeta morto, volto devagar pra Lua que um dia, quem sabe, vamos morar. Não viver o superficial da vida, ir contra as regras sociais que não tem nenhuma lógica para nos, nunca almejar a felicidade, invenção cruel da sociedade, estado da alma que não se compra, entorpece, assim enganamos a tristeza, 100 miligramas basta, Felicidade puro estado imaginário. A consciência de que somos finitos nos faz buscar ser tudo, antes que tudo acabe. Como passo agora sem você? A chuva vem lava a estrada e não me leva embora daqui. Eu não evaporo, sou solido dentro de você nessas segundas-feiras, feriado que decretamos no nosso país sem fronteiras, sem constituição. O rádio não toca aquela canção, seu suor tem um cheiro tão bom, anoitece e eu não vejo, sou eu com você, eu em você. Quando colocar meus pés no chão, o mundo volta a ser o que sempre foi. Volto pra minha forma usual, confuso, destilado. Você segue heroína, salvando o mundo, sem mim, sem nos, até quando seremos eu, você e o orgasmo mágico que incendeia a cidade e todas as possibilidades de sermos pequenos e insignificantes, a nossa verdade e a paixão sincera jamais será castigada, a dor do mundo suspira entre seu peito e o meu, no descansar da sua boca no meu ombro, na respiração explosiva, no sabor desse suor lisérgico, etílico e honesto.  

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Eu, modo de usar

Pode invadir
Ou chegar com delicadeza,
Mas não tão devagar que me faça dormir.
Não grite comigo,
Tenho o péssimo hábito de revidar.
Acordo pela manhã com ótimo humor, mas...
Permita que eu escove os dentes primeiro. 

Toque muito em mim,
Principalmente nos cabelos
E minta sobre minha nocauteante beleza. 

Tenho vida própria,
Me faça sentir saudades,
Conte algumas coisas que me façam rir,
Mas não conte piadas e nem seja preconceituoso,
Não perca tempo, cultivando este tipo de herança de seus pais.
Viaje antes de me conhecer,
Sofra antes de mim para reconhecer-me um porto,
Um albergue da juventude.
Eu saio em conta,
você não gastará muito comigo.
Acredite nas verdades que digo
E também nas mentiras, elas serão raras
E sempre por uma boa causa. 

Respeite meu choro,
Me deixe sozinha,
Só volte quando eu chamar,
E não me obedeça sempre
que eu também gosto de ser contrariada.
Então fique comigo quando eu chorar, combinado?

Seja mais forte que eu e menos altruísta! 
Não se vista tão bem...
Gosto de camisa para fora da calça,
Gosto de braços,
Gosto de pernas e muito de pescoço. 
Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto:
Boca,
Cabelos,
Os pelos do peito
E um joelho esfolado,
Você tem que se esfolar as vezes,
Mesmo na sua idade.
Leia,
Escolha seus próprios livros,
Releia-os. 

Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos. 
Seja um pouco caseiro e um pouco da vida,
Não de boate que isto é coisa de gente triste.
Não seja escravo da televisão,
Nem xiita contra.
Nem escravo meu,
Nem filho meu,
Nem meu pai.
Escolha um papel para você
Que ainda não tenha sido preenchido
E o invente muitas vezes.

Me enlouqueça uma vez por mês,
Mas, me faça uma louca boa,
Uma louca que ache graça em tudo que rime com louca:
Loba,
Boba,
Rouca,
Boca...
Goste de música e de sexo.
Goste de um esporte não muito banal.
Não invente de querer muitos filhos,
Me carregar para a missa,
Apresentar sua família...
Isso a gente vê depois...
Se calhar...

Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora. 
Quero ver você nervoso, inquieto,
Tenha amigos e digam muitas bobagens juntos.
Não me conte seus segredos...
Me faça massagem nas costas.
Não fume,
Beba,
Chore,
Eleja algumas contravenções.
Me rapte! 
Se nada disso funcionar...

Experimente me amar!

Texto - Martha Medeiros
Imagem - Vyacheslav Kulikov

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Relíquia

Sinto falta de mim, quando estou com você. Dos seios molhados e do beijo implacável, do seu jeito de reclamar do meu carro e das folhas que caem na varanda, na fachada, do precioso meio dia, em que acendia as luzes e me oferecia um café, Stones na vitrola, te ver aproveitando o vento, o cheiro que inebria a madrugada e silencia minhas magoas. Saudade da sua presença serena que me falava sem palavras tudo que eu precisava ouvir.

Tenho esse desassossego nos olhos que se fecham, quando você se vai. Sinto falta da sua forte presença, que dança, se move, como pétalas que brincam no tempo.

A filosofia calada das senhoritas que esperam nas calçadas, sem nenhuma censura. Eu tento, mas não encontro seu quadril, relíquia  encantada. Imprudência, os reflexos distorcidos nas ruas úmidas, a felicidade exausta na face dos velhos amigos que não compreendo mais, essa cidade eldorado recontado por Glauber, dorme cedo.

Boca fugas que me deixa torpe e encurralado nas minhas escolhas. A malícia do seu dia-a-dia enaltecem minhas ideias mirabolantes de viver em um mundo em que você está, um mundo em que meus olhos Sol, castanhos, descendência dos mouros, possa admirar sua pele pura purpura e marfim. Gostaria que estivesse aqui, agora, Doce Dama que enobrece essa alma minha, suada e rasgada.