quarta-feira, 20 de maio de 2009

BOB O GATO


Quando minha Avó deu o Bob, o gato para Minha filha, a Maria Júlia, já sabia que ele era especial, eu não sabia por que, mas ele tinha algo diferente, chegou pequeno se escondendo atrais dos moveis e minha filha querendo brincar, ficar com ele no colo, mas dava para ver nitidamente nos seus traços de personalidade que Bob, o gato, não era adepto de carinhos. Maria Júlia sofria, e perguntava: - Papai o Bob gosta de mim? E eu dizia: - Gosta filha. E completava dizendo que ele estava se acostumando à casa nova e tal. O gato maluco reforçou o relacionamento entre Maria e eu. Tínhamos pela primeira vez algo em que nos dedicávamos juntos. Quando falo gato maluco não é só força de expressão, o bicho era meio tan-tan. Por não ter muito contato com outros gatos ele pensava e tinha atitudes de um cachorro, e começou a confundir a cabeça da poodle (Encardida), uma cadelinha que achei na rua perdida e desidratada, que passou a comer comida de gato. O animal tinha um passatempo curioso que consistia em acordar o pastor alemão de quase cinquenta quilos e em seguida correr para debaixo do carro ou subir em alguma árvore, o engraçado é que eu tinha a impressão que o danado divertia-se com a mórbida e arriscada brincadeira. Como nunca acreditei nessa eterna guerra entre Cães e Gatos, me esforcei para provar essa teoria, e enfim consegui estabelecer a paz entre os animais lá de casa, Cães e Gatos em harmonia no rotineiro banho de sol matinal e imagine que um pastor alemão (Negão), que falarei dele em um outro momento, pode estraçalhar um gato com seus dentes, em oito míseros segundos. Acredito que onde existe boa vontade, cooperação, fé, leveza e respeito pela vida, a paz se instala.
Só não consegui que Bob o gato se desse bem com os calangos e pássaros. Os passarinhos que faziam seus ninhos na parreira se mudaram e dia sim, dia não tínhamos um corpo estirado no chão, de um pobre calango, mortes essas que com o tempo foram afetando a cadeia alimentar do meu pequeno eco sistema de oitocentos metros quadrados, aumentando consideravelmente a população de insetos.

No começo suportei Bob porque minha filha estava feliz com ele, depois toda casa se habituou à sua presença perturbadora. Não dava para saber quando ele resolveria pular na sua cabeça para pegar o cabelo que balança pela ação do vento, o susto era meio desconcertante e engraçado. Amarrar bolas de borracha e pedaços de papel no barbante para chamar a atenção de Bob, passa a ser uma das brincadeiras preferidas de Maria e uma boa distração para que o Cabuloso felino parasse de atacar tudo que se mexe.


Bob o gato foi embora e me deixou a difícil tarefa de ensinar minha filha a Maria Júlia a entender a perda. Antes de contar para ela o fato, fiquei em duvida se contava as possibilidades reais do desaparecimento do Bob, como assassinato, atropelamento, virar churrasquinho, pandeiro, ou se eu inventava uma história bonita e leve que a deixasse feliz com o novo destino do bicho. Bem optei pela segunda opção, contei para Maria que o Bob tinha arranjado uma namorada, uma gatinha cinza que morava ali perto e que eles tinham resolvido viver juntos. Às vezes eu brinco que ele passou em um concurso e se prepara para financiar um imóvel pela Caixa Econômica Federal.


Não sei se faço bem escondendo a verdade dos fatos para minha filha, talvez eu  esteja enfraquecendo-a para o mundo, deixando seu coração mole, leve demais. Mas a onde esta escrito que temos que ser fortes o tempo todo, a hora dela de ser forte vai chegar, eu só posso tentar dar-lhe ferramentas, como justiça, saúde e inteligência, para enfrentar o mundo. É quase tudo que ela precisa.
       

terça-feira, 19 de maio de 2009

CARÊNCIA


Crianças com mãos adultas escrevem a enxada a  história da nação 

O presente o passado a vida os chama ao futuro

Herdam a esperança passaram para os seus filhos se filhos poderem ter 

Pensando com o estomago vão escolhendo seus lideres
Vivendo numa seca mentira

Pensam que a piedade é verdadeira 

Aquele que lhe tira o pão enche-lhe de esperança enfeitada com dinheiro falso

No assistencialismo nacional 

A alimentação da mesmice

Um leve grito de consciência

Para não pensar no futuro

A solução para conter a morte não beneficia a continuidade da vida

Pátria paternalista madrasta cria seus filhos jovens velhos

Vagabundos quem diria, não conseguem trabalhar para acabar com a seca de amor humano.

Adauto de Oliveira

segunda-feira, 18 de maio de 2009

MAR ADENTRO.

Esse filme me foi apresentado em uma brincadeira de pessoas apaixonadas por cinema, tipo me mostra seu melhor filme e eu te mostro o meu. Não vou contar o filme porque algumas pessoas ainda não viram, mas em uma das cenas mais fortes do filme, ela, minha amiga apaixonada por cinema, chorava muito, e entendi algo que não conseguia ver antes, que alem de entretenimento e identificação, o cinema, ou seja, a arte em geral, deve nos arrebatar nos tornar seres melhores, mesmo que por um curto espaço de tempo.
Uma obra deve nos tirar do cotidiano e dar vontade de sair de madrugada andando até a esquina para comprar um vinho, de beijar na chuva, de fazer sexo diferente, ousar em uma roupa, e falar para alguém o que sentimos e guardamos a muito tempo, de mandar um e-mail para aquela velha paixão, tocar o instrumento que está encostado e dizer bom dia para quem passa.

Depois de um tempo, quando essa amiga já não fazia mas parte da minha vida, estava na cinemateca do Rio de Janeiro, fazendo uma pesquisa de imagens para um filme. Quando encontrei em um canto de um dos corredores da cinemateca, as latas de filme de Mar adentro, eram cinco no total. Dali emanava uma energia, no fundo são latas de metal contendo rolos de filme de celulose, mas para eu, era sentimento, engenhosidade, sensibilidade, o conteúdo daquelas latas ali no canto de um corredor da cinemateca, me ensinaram, por exemplo: como representar a imaginação de um personagem de maneira única e genial, sem clichês, soluções fáceis e ingênuas. Inconscientemente passei minha mão sobre sua superfície empoeirada, como quem acaricia a cabeça de um doente sem esperança, no corredor de um hospital superlotado.


Mar adentro

E na leveza do fundo

Onde se realizam os sonhos

Juntam-se duas vontades

Para cumprir um desejo

Seu olhar e meu olhar

Como um eco repetindo sem palavras

Mais adentro

Mais adentro

Mais além do que tudo, pelo sangue e pelos ossos.

Mas desperto sempre

E sempre quero estar morto para seguir com minha boca enredada em seus cabelos. 


Trecho do filme, espero que gostem!

NO CENTRO NO MEIO DO CANTO.


E as musicas, livros livres e filmes dedicados a tudo que foi. Todas as tardes de sol e as noites de lua, o que chegou depois, o que chegou sem consistência. Chegou marcado por um passado trágico e um sorriso frágil de fracasso percebido, de medo da vida, sem misturas sabias. Sozinho e pálido, meio as verdes sólidas que perfumou o caminho. Rápido saltou no meio dos ventos cantadores de estórias, que esperavam chuva quente pra molhar o chão torrado rachado. Que escorrega cria lama faz fama no centro no canto, escondido, criando calos, um pouco calado, sorrindo de lado, temendo o fracasso. E a solidão do parto de puta, no centro no canto do quarto, de um lugar cansado, com pássaros que comem ratos e esperam fatos isolados, sombreados pelo tempo das rochas que já foram água, que correm veias matas tortas, sem compromisso, pouco submisso, sujo, ferrado, listrado atacando o peixe que pensa que nem serpente, consumindo o grão do fim do ano, sem pensar no fim do seu encanto. No meio no centro no canto de um pedaço escuro do Sol.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

SUAS MÃOS, OS ANTI-HERÓIS E O BREU.



Não escolhemos as pessoas que entram na nossa vida. Elas simplesmente passam a fazer parte. De repente já não sabemos mas viver sem elas, e não sabemos como vivemos tanto tempo sem elas.
Uma menina me disse que a felicidade era subjetiva. Essa mesma menina me deu a mão no escuro, e seu beijo suave me acalmou. Sinto vontade de ser menos critico e de voltar para casa. Como ela diria: “Vamos levantar, e bola pra frente”. Essa menina tinha tudo para partir meu coração, mas com os dedos enfiados nas nuvens, mostrou-me que até o Sol perde, dançou enlaçada em mim e experimentei a entrega, encontrei sentido onde antes nada enxergava, porque o vazio fazia-lhe sentido, como quase tudo no mundo. Conduziu-me aos corais de marfim beijando meus cabelos. Quando quis estar somente com a companhia de estrelas afogadas, ela me ofereceu em troca uma de suas conchas de sal, por o tempo que se dissolva ou trinta e oito segundos de boca livre nas suas costas.
Às vezes é menina, ainda não me acostumei com seus carinhos, ela não acredita que o meu desejo de estar dentro, não é maior do que o meu desejo de estar dentro de seus olhos. Há horas que sinto que o Mar está perto e a maresia está a flutuar em partículas no vento, como miragem do olfato.
Como eu havia dito. Um dia ela me deu a mão no escuro, e eu também lhe dei a mão. Enfim já não sabíamos quem conduzia quem, e mesmo assim encontramos a saída.